January 8, 2010
Fotografia: de arte a doença mental

O colunista Nigel Farndale, do Telegraph, foi certeiro ao resumir a questão: “a fotografia, que já foi uma nobre arte, se tornou, graças ao movimento digital, uma doença mental”.

Hoje, o sujeito está no bar tomando uma cerveja, no teatro, no museu ou seja lá onde for e logo aparece alguém para fazer uma foto. O fenômeno se deve à popularizacão das câmeras nos celulares. Hoje todos temos celulares, logo, todos temos câmeras. O @Ricardo_Amorim até me contou de seu entrevero em 1999 com uma turista americana no Louvre, que não parava de fotografar. E quem vai a museus para ver obras de arte sabe como uma câmera pode ser irritante.

O fato é que as câmeras estão se tornando uma espécie de extensão virtual das pessoas. Estamos obcecados por registrar o que vivemos para mostrar no Facebook, Twitter, Orkut, Flickr e afins.

O jornalista Stuart Jeffries, em sua coluna no Guardian, lembra que o sociologista Zygmunt Bauman em seu livro “Amor Líquido” (Zahar), escreve que em um mundo moderno os elos duráveis e notoriamente consolidados de família, classe, religião e casamento desapareceram, buscamos algo que nos mantenha ligados ao outro. E a ascensão das redes sociais, assim como as fotos compulsivas das câmeras digitais, seriam meios de validar nossa existência.

Aos compulsivos fotógrafos vale a leitura de “As Aventuras de um Fotógrafo”, de Italo Calvino (está no livro “Amores Difíceis”, da Companhia das Letras). Inicialmente o protagonista, Antonino Paraggi, nem mesmo gosta de fotografar. Mas depois que começa a clicar, fica obcecado pelo desejo de registrar cada momento de sua paixão pela mulher, Bice. Antonio busca “eternizar” cada instante de sua vida. Mas ao perceber que o companheiro só realiza sua paixão por meio da fotografia e que a relação entre o casal só acontecia nas imagens, Bice abandona o marido. Logo, Antonio começa a fotografar o vazio, a ausência do seu objeto de desejo. Abaixo, trecho do conto.

“Dobrou as pontas dos jornais num enorme embrulho para jogá-lo no lixo, mas primeiro quis fotografá-lo. Acendeu um refletor; queria que em sua foto se pudessem reconhecer as imagens meio emboladas e despedaçadas e ao mesmo tempo se sentisse sua irrealidade de sombras casuais de tinta, e ao mesmo tempo ainda sua concretude de objetos carregados de significado, a força com que se agarravam à atenção que tentava expulsá-las. Para conseguir colocar tudo isso numa fotografia era preciso conquistar uma habilidade técnica extraordinária, mas só então Antonino poderia parar de fotografar. Esgotadas todas as possibilidades, no momento em que o círculo se fechava sobre si mesmo, Antonino entendeu que fotografar fotografias era o único caminho que lhe restava, aliás, o único caminho que ele havia procurado até então.”

Gostaria de deixar claro que não tenho nada contra a fotografia digital ou redes sociais, ao contrário. Acompanho, por exemplo, o trabalho do @amf, que transformou o meio digital em uma ótima plataforma de divulgacão para suas fotos. Infelizmente, todo excesso leva à desvalorização. Mas como acontece com as novas tecnologias, com o tempo iremos nos adaptar e encontrar meios produtivos de usá-las. E a fotografia deixará de ser um distúrbio social.