Como explico para uma criança de um ano de idade que a manhã de sofrimento que ela passou para tirar uma amostra de sangue foi inútil, já que o laboratório @Fleury_online cometeu um erro? Como justifico para alguém com pouco mais de 12 meses de vida que um técnico errou e contaminou as amostras de sangue para exames de potássio e cálcio com EDTA, um conservante usado para análises de hemogramas? Como digo para a minha filha que as três enfermeiras, com a ajuda do pai e da mãe, que a imobilizaram por minutos que mais pareciam horas, na verdade tinham boas intenções e só queriam tirar sangue para exames básicos? Como explico para a Sosso que ela vai ter de passar por tudo isso novamente? Ficar com uma bolsa de água quente no braço porque ela tem a veia muito fina e “escondida”, já que é um neném de bracinho gordinho; ser imobilizada com um elástico apertando o braço; ficar presa à maca sem se mover por um longo tempo para a agulha colher todo o sangue que precisa sem romper a veia?
O representante do laboratório Fleury, simpático, me disse por telefone que foi um erro. Dos médicos que conheço, ouvi que o nível de qualidade dos laboratórios de análise, incluindo o Fleury, caiu muito após uma onde de fusões no setor. Hoje, um punhado de empresas controla todo o mercado de análises. Dominaram com a lógica do dinheiro. Cortaram custos, principalmente demitindo os profissionais mais especializados - os médicos e técnicos que recebiam os melhores salários por serem mais graduados e experientes -, e compraram os laboratórios menores que não se adaptaram. Aparentemente, o corte de custos não se refletiu nos preços cobrados e se limitou a maiores margens de lucro para as empresas. O reflexo possivelmente tenha sido no número de erros. Não sei se existem estatísticas que comprovem a queda na qualidade do serviço prestado ou se a opinião se limita aos médicos que conheço.
Sei que é utópico da minha parte, talvez até egoísta, cobrar qualidade por um serviço clínico que no nosso país ainda é um luxo indisponível para a imensa maioria dos brasileiros. “Se é assim no Fleury, imagine no resto”, disse um amigo. Outra pessoa tentou me consolar diante da frustração de pai impotente: “Pelo menos foram honestos e avisaram, outros poderiam ter mandado um resultado errado e fingido que nada aconteceu”. E estão certos, ao menos houve transparência. Entendo, mas não aceito. Tenho 33 anos, a Sosso está começando a vida. Espero que quando chegar à minha idade não precise explicar para um filho que o laboratório errou, que um bebê sofreu em vão, que o mercado de clínicas é uma escolha entre as menos piores e que no país em que ela vive, mesmo diante de um erro grosseiro, ela tem sorte de poder fazer um exame.
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